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Cemitério de elefantes

Seu Jorge é o porteiro do dia aqui no prédio. Está conosco há 17 anos e além de trabalhar aqui faz bicos nos finais de semana para melhorar sua renda. Dona Herotildes, sua esposa tem câncer de ovário e a metástase já atingiu o fígado, rins, baço e intestinos. Não há cura possível nesse estágio. Eles apenas buscam um lugar para ela morrer com dignidade, sem grandes sofrimentos. Há um mês eles procuram vaga em um hospital na grande Porto Alegre. São viagens inúteis, gastando em táxi o que eles não podem gastar.

Há dez dias atrás seu Jorge me pediu ajuda. Sem saber muito como agir num caso desses, liguei para meu amigo Carlos Sunol, no Sindicato Médico. Ele me indicou a Abrasus, uma ONG que defende os pacientes do SUS nestas condições. Desde então tenho acompanhado, dia a dia, o drama pessoal desses brasileiros. Por maior que seja a vontade da Abrasus de ajudar, tudo trava na burocracia existente no setor mais carente e vergonhoso da nossa sociedade e dos governos Federal, Estadual e Municipal.

Ontem seu Jorge se encheu de esperanças com a possibilidade de diminuir as fortes dores de sua esposa. Recebeu uma ligação da Abrasus pedindo que ele fosse num posto do SUS nos confins de Gravataí. Falso alarme. Lá ele recebeu apenas uma marcação de uma consulta com uma ginecologista no Hospital Conceição. Nada de internamento. Seu Jorge, um brasileiro comum como tantos, vê as portas se fechando enquanto dona Herotildes se esvai em sangue e dor. Ela não precisa de mais uma consulta, ela precisa de um internamento em um hospital para morrer com dignidade.

Além da Abrasus eu tentei outros caminhos onde eu conheço pessoas que poderiam ajudar. Inútil. Sem entrar na fila não há internação. Assim eu vi através dos olhos marejados do seu Jorge a crueldade e a infâmia cometida contra os brasileiros. E eu estou falando apenas de um caso próximo a mim. Quantos seus Jorges existem nesse momento tentado lutar pela vida ou apenas morrer com um pouco de assistência? Milhares.

Nós fazemos parte da elite do país, uns mais do que outros. Quando eu leio nos jornais que tal político, por um problema menor logo é internado no Hospital Sírio Libanês em São Paulo, fico indignado. Porque não mandamos estes “líderes” para uma fila do SUS? Porque somos uma sociedade de castas, somos coniventes com o festim que é feito com o dinheiro público, que é nosso dinheiro, dinheiro dos nossos pesados impostos.

E assim “La nave va”. Como dizia uma amiga minha socialista: “é preciso que algumas poucas coisas mudem para que nada mude”. O país mudou economicamente sim, mas a desigualdade naquilo que mais nos interessa continua. Enchemos nosso povo de carros, geladeiras, refrigerantes e comida industrializada e esquecemos dos pobres elefantes, enormes, bem a vista morrendo ao nosso lado sem que ninguém sinta falta deles.

Laerte Martins
18.05.2013