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Comercial de guaraná com menstruação não combina

O início dos anos 70 marcou uma etapa muito rica para a produção de comerciais em filme no Brasil. Antes disso muito dos nossos comerciais eram produzidos na Argentina que já desfrutava de uma indústria cinematográfica, cujo sub-produto eram os comerciais, tanto que meu primeiro filme para o óleo de soja Violeta da Olvebra foi produzido no Rio de Janeiro pela produtora do Carlos Manga e dirigido por um jovem argentino recém chegado chamado Hector Babenco.

Além disso as agências brasileiras descobriram o Festival de filmes publicitários de Cannes e a cada ano subia o número de inscritos, filmes e delegados. Só que o Brasil fazia feio em Cannes porque qualquer um podia escrever qualquer filme. Não havia um controle de qualidade. Pensando nisso um grupo de influentes publicitários junto com alguns colunistas de propaganda, criaram o Conselho Nacional de Festivais, que embora não tivesse a força de vetar, pelo menos regulava minimamente os filmes que poderiam ter a chance de conquistar um Leão em Cannes.E u fui convidado a fazer parte do Conselho que tinha nomes sagrados como Mauro Salles, Alex Periscinoto, José Zaragoza, Roberto Duailibi, Carlos Alberto Fontoura e outros do mesmo quilate. As reuniões eram mensais, alternando-se o local: um mês no Rio e outro em São Paulo.

Este movimento gerou o surgimento de vários festivais do filme publicitário em outras regiões do país e também um grande evento sobre o mesmo tema lançado pela Rede Globo, que mais tarde veio dar origem aos Profissionais do Ano.

Eu adorava esses encontros,um jovem publicitário do Rio grande do Sul convivendo com os grandes nomes da época. Em uma dessas ocasiões nós estávamos no Rio escolhendo os filmes que iriam a Cannes naquele ano quando o Alex Periscinoto apresenta um comercial do guaraná Antartica. Aparecia em primeiro plano um jovem simpático e carismático que falava para a câmera: ”para ser feliz eu não preciso de muita coisa, uma prainha, uma mulherzinha (atenção feministas,na época isso não era crime nem politicamente incorreto) e um guaranazinho antártica…”A câmera se movimenta e enquadra um mulherão (isso ainda pode dizer?) com um guaraná Antartica na mão,vestida apenas com um sumaríssimo biquíni branco. Eu sempre fui muito atento a detalhes, principalmente com uma mulher em cena. E lá estava a enorme mancha vermelha no V do biquíni! Pedi para passar de novo porque aparentemente ninguém havia notado. Ai todo mundo viu a mancha de sangue. Alex um tanto contrariado explicou que a modelo menstruou justo na hora da filmagem e como não dava tempo para substituí-la a tempo de participar do Festival ele tinha passado a cópia com a mancha e um novo comercial estaria pronto para Cannes, dessa vez sem menstruação.

Aceitas a explicação, o comercial refeito foi a Cannes e voltou de lá com um Leão de Bronze.